Precisamos de uma reforma sexual urgente – O Globo

Reportagem: 02/04/2019

“ Se você é mulher, diga sinceramente a si mesma quantas vezes já gozou de verdade. Um orgasmo tão profundo, um prazer tão imenso, que toma conta do corpo sem que você nada possa fazer para controlá-lo. Não falo do prazer rápido e superficial dos filmes pornô, mas do tipo de êxtase que fez os franceses denominarem a sensação depois de um orgasmo de la petite mort.

Desculpem a minha indiscrição, mas eu gozo assim. Outras mulheres também. E muitas mais querem chegar lá, como pude perceber ao participar do curso I love my pussy (em tradução literal, “Eu amo a minha boc…”), da filósofa e terapeuta tântrica Carol Teixeira, a mulher que defendeu no TEDx que o empoderamento feminino deve passar pela vagina.

Quando ouvi falar das vivências comandadas por ela pela primeira vez, desconfiei. Como é possível que, depois de tanto discurso empoderado, a gente ainda esteja discutindo a importância de uma sexualidade vivida com verdade? Desconfiei tanto que me inscrevi. E quebrei a cara. A questão é: não importa o quanto uma mulher usufrua das conquistas do feminismo nem o quanto ela se dedique a viver sua sexualidade com liberdade. Todas nós carregamos no corpo as consequências de um modo de vida pensado e organizado pelos homens e para os homens.

No curso, ministrado no Rio há duas semanas, éramos em torno de 20 mulheres, com idades, classes sociais, profissões e experiências diferentes. Falamos, ouvimos, dançamos, choramos, gargalhamos e gritamos. Exorcizamos os nossos medos, perdoamos, escrevemos cartas para as nossas mães (em última análise, as grandes “culpadas” por tudo) e nos emocionamos. Aprendemos a olhar, a tocar com sutileza e a massagear. Vimos uma mesma mulher atingir o orgasmo repetidas vezes de forma intensa. Fomos da catarse à fragilidade emocional para recriarmos a ideia de prazer. E, sim —cada uma em sua intimidade e em seu tempo—, todas gozamos. Foi libertador.

Unindo pensadores ocidentais como Georges Bataille ao tantra, a gaúcha de 39 anos tem uma websérie no canal da Hysteria, no Youtube, dá cursos no Rio, em São Paulo e onde mais chamarem. Para ela, o trabalho é uma missão. Uma missão que já levou Camila Pitanga, Leandra Leal, Narcisa Tamborindeguy e centenas de anônimas e famosas a participarem de suas vivências. “É impressionante o nível de insatisfação das mulheres. Precisamos de uma reforma sexual urgente”, diz.

(Por Renata Izaal)

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